Santaluziense José André fala sobre Aristana e o contexto social e religioso no qual ela viveu

Revmo. José André  
José André Silva, santaluziense, pastor da Igreja Presbiteriana e profundo conhecedor da história de Santa Luzia escreveu um artigo contando um pouco sobre o contexto sócio-religioso em que viveu a professora Aristana de Brito Guerra. Acompanhe o texto logo abaixo:




DA RELIGIOSIDADE PARA UMA VIDA PRÁTICA


Partindo de um pressuposto de que um dia fomos colônia de Portugal, que por ocasião do descobrimento do novo mundo, consequentemente a terra da Vera Cruz - o Brasil - vieram em meio às esquadras Cabrália, em suas embarcações, pelo menos três características dos desbravadores portugueses: 1- a conquista da terra; 2- a cultura e culinária; 3- a religiosidade.
A conquista da terra, o Saber Ter, era uma das mais eminentes projeções dos desbravadores, mesmo que essa se deu através do Saber Navegar, pelas conquistas dos oceanos, quando os navegadores singravam os mares de forma segura, em busca do desconhecido. Na tripulação se trazia de tudo, o cartógrafo, o cronista, o religioso, o músico, o médico, o ferreiro, o carpinteiro, o cozinheiro, os marinheiros etc. Com o desvio da esquadra em sua rota marítima, não sei se de forma acidental ou proposital, o certo é que chegaram até a nossa Pátria.
Desbravar um mundo novo era o que desafiava aqueles navegadores.
Havia uma terra de proporções continentais a ser conquistada e o número de tripulantes da esquadra não era suficiente para a conquista da terra. Fato que se deu em outro momento, com os donatários e suas capitanias. Eram famílias que desembarcaram no nosso país com uma finalidade, conquistar a terra.   
A cultura europeia migrou com a chegada dos colonizadores, nela vieram a música, a dança, a poesia, o drama, o vestuário, a culinária. A influência europeia agora chegava ao novo mundo. Não foi diferente com os conquistadores dos sertões, homens descritos como “fortes”, que tinham a missão de adentrar aos rincões mais áridos e desertos da nossa terra.
A religião também fez parte dessas conquistas. A crença no Deus que remove montanhas, que cura a praga da terra, que acalma o mar, que cura todas as enfermidades, motivava a religiosidade entre os colonos. Uma das especificações dos religiosos (clérigos) era a dedicação à leitura. Poucos colonos tinham esse acesso, mesmo alguns nobres. Não é de se admirar que dentro da própria corte havia poucos que tinham a habilidade na leitura, motivo este que suscitou alguns a se dedicarem ao ensino, que se deu através da Igreja com seus monges jesuítas, que tinham entre as suas missões, formar as crianças e jovens da nova Pátria na doutrina de sua religião.
Para isso, tinham que aprender a ler para que, por si próprios, pudessem descobrir os universos do Saber e do Saber Ser. A devoção fazia parte do panteão dos santos da sua freguesia. Para cada localidade havia um padroeiro, que por sua vez era o intercessor daquela localidade junto a Deus. O cultivo dessa devoção levava alguns à sua inteira dedicação e devoção, consagrando suas vidas nessa missão de servir à Igreja.
Outros três propósitos impregnavam a mente dos conquistadores: 1- o respeito ao rei; 2-a obediência à lei; 3- a fé em Deus. Para que isso pudesse se concretizar era necessário que as crianças desde cedo fossem doutrinadas a respeitarem o rei, observarem as leis e servirem ao reino de Deus. Isso se dava de formar metafórica quando o reino (império) era comparado ao Reino de Deus. Adorar a Deus, obedecer às leis canônicas e servir à Igreja.
Em nosso sertão, em particular na nossa cidade de Santa Luzia-PB, não podia ser diferente das demais localidades: Brasil colônia, Brasil império, Brasil república. As famílias tinham características similares. Os homens eram treinados para o avanço da agricultura e pecuária, enquanto as mulheres eram treinadas para o exercício do lar, em particular, o preparo para o matrimônio.
Na filosofia familiar deveria haver, em cada família, um juiz ou advogado, um médico, um padre ou uma freira, uma professora. Os demais serviam na fazenda de onde vinha a subsistência familiar.
O fazendeiro e líder político Aristides de Araújo Guerra, casado com Dona Francisca, conhecida por Chiquinha, foi um dos escolhidos para o exercício judiciário leigo da província de Santa Luzia, onde julgava as causas e demandas que porventura houvessem. Em sua prole nasceram doze filhos, um homem e onze mulheres que se destacaram cada uma em seus segmentos. Podemos destacar Aristana de Brito Guerra (Tana), na Educação, e Francisca Ferreira de Medeiros (Xixica), que se dedicou à vida familiar. Aristana, a quarta filha do casal, dedicou-se à religião, sendo devota de Santa Tereza de Jesus. Como uma religiosa fidedigna ao serviço da igreja, buscava realizar a sua missão através: da alfabetização, da catequese, das novenas, dos terços rezados e das ladainhas, além do preparo de outras jovens para o matrimônio.
Enquanto os homens eram preparados para os trabalhos agropecuários, alguns eram escolhidos para o estudo, tendo a dedicação total. Esse deveria ter a profissão escolhida por seu pai: advogado, engenheiro, médico. Um outro deveria ser o representante da família junto ao clero. As mulheres precisavam se preparar para o matrimônio e, assim, o serviço oferecido pela Igreja era de grande valia, pois ali elas se dedicavam ao serviço religioso, à devoção, mas também se preparavam para o casamento.
A escola pública era dividida em duas partes: a masculina e a feminina. Na masculina, teve como um dos pioneiros o professor Manoel Otávio. Na feminina, a professora Aristana de Brito Guerra, fundadora da Escola Pública Feminina de Santa Luzia. A escola feminina tinha como finalidade primária o preparo para o matrimônio e a criação dos filhos. Nela se aprendia a ler e escrever, bordar, tricotar, costurar, pintar telas e vasos, caligrafar, recitar poesias (declamar), cozinhar, forrar a cama, dobrar as roupas, além de treinar para ser uma boa religiosa – escolhendo o santo de sua devoção. Aristana dedicou toda a sua vida ao ensino e preparo dessas jovens, ela assumiu a sua missão como um sacerdócio, acreditava que tinha sido escolhida por Deus para treinar mulheres na formação de um novo lar e na perpetuação da Igreja na terra.
A jovem Aristana, apesar de ter uma saúde frágil, teve uma criação austera, fato que moldou o seu caráter de forma esmerada, motivo que se dedicava e realizava a sua missão: educar e servir à Igreja. As próprias irmãs Xixica (1885-1978) e Dora (1886-1957) foram alfabetizada pela irmã Aristana.
Uma de suas alunas ilustres foi a professora santa-luziense Maria Fernandes Dantas, Dona Lia, mãe do dr. Ademar Fernandes Dantas (1922-2014), médico, escritor e teatrólogo que muito honrou Santa Luzia e a Paraíba, sua terra natal e que passaram a maior parte de suas vidas em Campina Grande-Pb.
Outra aluna da professora Aristana foi Dona Yayá (1900-1999), mãe de Dona Edi, esposa do Dr. Moaryr Medeiros, juiz de grande respeito e destaque na corte paraibana, sobrinho de Aristana. As alunas de Aristana tinham entre as suas tarefas, decorar a tabuada, caligrafar, declamar poemas que era uma forma cultural de ter o acesso ao saber. Elas decoravam os poemas para declamar em momentos festivos, religiosos ou até mesmo nas reuniões de familiares, prática muito comum disseminada a seguir em toda a região.
Aristana tinha o dom do conhecimento e da palavra, sabia como ninguém endereça-las no tempo oportuno. Apesar de discreta, tinha o poder da persuasão e convencimento. Era a mestra do saber. A dedicação ao ensino e a Igreja lhe custou a ausência de um relacionamento matrimonial, optou por ser uma donzela respeitada. Preferiu gerar filhos do saber e do crer. Acreditava que sua missão era essa formação de outros lares a serviço da nação e da Igreja.
A austeridade e piedade de Aristana lhe transformou em intercessora, por ocasião da passagem cruenta do cangaceiro Antônio Silvino pelo Vale do Sabugi, ocasião que aterrorizou toda a população, saqueou o comércio, assolou as fazendas, destruiu a banda filarmônica. Momento onde tomou como prisioneiro o líder político e juiz da cidade, Aristides Guerra, pai de Aristana, demonstrando a sua força e poder. A cidade estava completamente dominada pelo cangaceiro. Os bens estavam sob a sua posse, precisava demonstrar que ele (cangaceiro) estava acima da lei. Tinha que matar o juiz. Nessa ocasião, aparece a intercessora, Aristana, que pede de forma humilde, com voz suave e serena, rosto angelical, a misericórdia do cangaceiro.
Antônio Silvino estava acostumado a ouvir gritos de desesperos. Agora escuta uma serena voz que comove o seu coração. O juiz foi libertado a pedido da jovem religiosa, que afirmou, em depoimento do próprio cangaceiro ao dr. Adhemar Dantas, após a sua prisão, “ouvi a voz e a imagem de Santa Tereza”.
Uma das finalidades da vida religiosa (cristianismo) é comunicar as virtudes divinas a um mundo caído. Deus comunica a sua graça comum aos seres humanos. Todos têm Dele alguns atributos, entre eles: a crença (comunhão) na divindade celestial; o altruísmo; a vida comunitária.
Às vezes, os seres humanos não buscam exercitar a parte divina refletida em sua vida, tonando-se divorciado de Deus, sendo egoísta e se tornando um tirano. A crença no Deus todo poderoso e o acesso à leitura das escrituras, permite-nos esse encontro com o divino: o retorno ao Deus verdadeiro, o compartilhamento com os irmãos e a terra para todos os seus moradores. Não adianta crer no Deus verdadeiro e não ter uma vida piedosa. Muitos sabem tudo sobre a religião, dogma, leis canônicas, teologia, mas lhes falta a vida piedosa que agrada a Deus. É por isso que devemos partir da vida religiosa para uma vida prática, seguindo os passos de Jesus, que disse: “assim como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos”. Mt.20:28.
Rev. José André Silva

Comentários